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Novo Estado da Matéria Criado no CERN |
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A descoberta do Plasma de Quarks e Gluões (QGP) -- estado primordial da matéria agora recriado no laboratório levou cerca de 15 anos.
No domínio da Física das Partículas pode considerar-se uma descoberta rápida!
QUAIS FORAM OS CAMINHOS QUE NOS LEVARAM À DESCOBERTA?
I - MOTIVAÇÃO
No processo do conhecimento há sempre uma inter-relação entre teoria e
experimentação.
A Cromodinâmica Quântica (QCD), teoria que rege o mundo das partículas,
prevê que a matéria hadrónica
[1], tal a como conhecemos hoje, tenha uma
transição de fase para um novo estado de matéria - o Plasma de Quarks e
Gluões. Este novo estado não é mais do que o estado de matéria primordial
que existiu alguns microssegundos após a explosão inicial que formou o
Universo - o Big Bang. Na matéria hadrónica normal, os quarks e gluões
estão confinados em pequenos "sacos", os hadrões. Por aquecimento ou
compressão da matéria hadrónica, a teoria QCD prevê que se dê uma
transição de fase em que os "sacos" hadrões se rompem e os seus constituintes
quarks e gluões passam a estar livres como numa sopa, ou seja, ficam
desconfinados.
II - A PALAVRA É DADA À EXPERIMENTAÇÃO
As experiências sondam a realidade, descobrindo novos fenómenos, e testam
os modelos teóricos.
Os 15 anos da nossa pesquisa experimental dividem-se em duas fases
descrita a seguir
- o programa
exploratório de iões leves (oxigénio e enxofre) e o programa de aceleração
de iões pesados (chumbo)
no acelerador SPS do CERN (Super Proton-Synchrotron).
O período de 1984 a 1992, corresponde ao programa de iões de oxigénio e
enxofre
a energias de 200 GeV/nucleão [2],
desde a data de entrega no CERN da "Carta de
Intenções" declarando o nosso interesse na utilização de feixe de iões
ultra-relativistas para a pesquisa de QGP, seguida da Proposta de Experiência
que foi aceite com o nome de NA38, até ao último ano de tomada de dados com
estes iões leves (enxofre).
Portugal participou no projecto desde a primeira hora. Em 1984 éramos 3
jovens portugueses, a acabar as nossas teses de doutoramento num laboratório
francês, que já estavam a pensar no seu regresso à Pátria como físicos.
Em 1985 a Proposta de Experiência, que inclui a distribuição de
responsabilidades, foi assinada por 7 portugueses, 22 franceses, 3 suíços
e um espanhol.
Em fins de 1986 um primeiro feixe de iões de oxigénio foi acelerado no SPS
do CERN e canalizado para as seis experiências, entre elas a nossa, NA38.
Ao mesmo tempo nasce o nosso Laboratório LIP e Portugal torna-se oficialmente
membro do CERN.
Neste período, grande excitação houve logo de início nas observações
que fazíamos através da [3] de apenas duas partículas,
pares de muões (um positivo e outro negativo), emitidas nas colisões com
alvos pesados de urânio.
Os muões são partículas estáveis, que podem resultar da desintegração
de outras como o
Acontece que, no caso do pico do
Ora, dois físicos teóricos, o alemão H. Satz e o japonês T. Matsui,
tinham previsto em 1985 que a partícula
Na verdade, no desconfinamento os quarks e gluões encontram-se muito juntos,
não havendo a distância necessária para que os quarks
Apesar da grande excitação causada por esta observação, não tínhamos os
dados todos para concluir termos recriado no laboratório o novo estado
da matéria, o QGP. Por isso, abstivemo-nos de o anunciar. Os cientistas
só podem fazer afirmações quando têm a certeza, após a exclusão de todas
as hipóteses alternativas.
De facto, o desenvolvimento de modelos "clássicos" veio a permitir explicar
estes nossos primeiros resultados através da interacção do
Ainda não tínhamos atingido a densidade de energia suficiente para que se
desse a transição de fase entre a matéria hadrónica e o Plasma de Quarks
e Gluões, mas sentíamos que estavamos lá quase!
Assim surgiu a ideia de uma segunda fase de experiências no CERN com iões
mais pesados. Uma nova Proposta de Experiência foi submetida em 1992,
pelos membros da colaboração NA38 (portugueses, franceses e suíço)
acrescida de físicos oriundos da Itália, Rússia e Roménia (vindo a
Arménia a juntar-se-nos quatro anos mais tarde). A experiência ficou com
o nome de NA50 e começou a utilizar feixes de iões de chumbo desde então
disponíveis no CERN, a 158 GeV/nucleão.
Após a primeira "rodagem" do dispositivo experimental em fins de 1994 que
compreende o espectrómetro usado em NA38 melhorado e acrescido de novos
detectores,
Fizemos várias verificações, controlámos exaustivamente as hipóteses de
erro e, certos da coerência dos resultados (para a mesma densidade de
energia obtida, quer em colisões laterais chumbo-chumbo, quer interacções
enxofre-urânio, o número de
A excitação ressurgiu:
seria esta supressão anómala do
Mas, mais uma vez prudentemente, antes de qualquer afirmação definitiva,
continuámos com as nossas experiências para aumentarmos a estatística e
assim medirmos com maior precisão e em função da densidade de energia este
desaparecimento extraordinário da partícula
Os resultados são cada vez mais espectaculares! Uma descontinuidade em forma
de degrau, como na evolução da temperatura da água na transição de fase do
estado líquido para o estado gasoso, é observada nas
colisões semi-frontais.
Estávamos perante a transição de fase procurada entre a matéria hadrónica
e o Plasma de Quarks e Gluões!
Durante dois anos os teóricos mais irredutíveis tentaram por todos os meios
afinar os seus modelos baseados na concepção clássica, i.e., sem introdução
de desconfinamento, mas os seus esforços de explicação dos dados redundaram
num insucesso total!
Os resultados exaustivos de NA50 descrevendo a formação da partícula
ACELERAR IÕES DE OXIGÉNIO E ENXOFRE - A Experiência NA38
PORTUGAL ENTRA EM CENA
AS PARTÍCULAS
DESAPARECEM!
, o
, o
, o
,
etc (leia-se ró, ómega, fi e psi), partículas estas que se
visualizam como estruturas em picos situados "nas encostas duma montanha",
conforme a sua massa.
,
observámos a sua diminuição com o
aumento de energia posto em jogo na colisão (nas colisões frontais, ou
centrais, entre um ião do feixe e um átomo do alvo há mais densidade de
energia do que nas colisões laterais, ou periféricas).
seria impedida de se formar, i.e.,
a sua produção seria suprimida no caso em que se criasse o Plasma de Quarks e
Gluões.
e
(os constituintes da partícula
) se relacionem.
A PRUDÊNCIA É BOA CONSELHEIRA
,
e sua
consequente destruição, num meio muito denso,
o gás de hadrões resultante deste tipo de colisões.
AVANÇAR COM IÕES DE CHUMBO - A Experiência NA50
DESAPARECEM CADA VEZ MAIS PARTÍCULAS
!
os primeiros resultados começaram a surgir da análise dos dados tomados em
fins de 1995: nas colisões chumbo-chumbo o
é ainda mais suprimido do que
nas interacções com iões mais leves e, desta vez de maneira claramente anómala,
i.e., não previsível pelos modelos hadrónicos que tinham sido afinados para
as interacções com protões e iões leves (até ao enxofre) e que fazem
previsões muito precisas para qualquer tipo de colisão de iões desde que
não haja mudança de estado.
produzidos é igual), estavámos prontos a
anunciá-los.
Assim, a primeira apresentação pública da supressão anómala do
foi
feita em Março de 1996 por uma portuguesa, em representação de NA50, numa
Conferência Internacional da especialidade, em França, tendo havido na
altura ecos na imprensa portuguesa
público de 7/5/96.
o sinal da formação de QGP que procurávamos?
PERCEBER MELHOR: Obter Maior Número de Colisões
nas colisões ultra-
relativistas de chumbo contra alvos de chumbo. Para tal, usámos alvos mais
espessos e feixes mais intensos na tomada de dados efectuada em fins de 1996.
EUREKA!
desde
as colisões protão-hidrogénio até chumbo-chumbo eram detalhados "demais".
Era impossível explicar duma maneira única, sem admitir a transição de fase
para QGP, a produção do
por no's medida nas interacções de protão com
diferentes alvos (deutério, carbono, alumínio, cobre, tungsténio, urânio),
e de oxigénio-cobre, oxigénio-urânio, enxofre-urânio e chumbo-chumbo.
SINAL DO PLASMA DE QUARKS E GLUÕES:
A Supressão do
em Colisões Centrais Chumbo-Chumbo
A descrição deste comportamento com dois degraus é simples. Há partículas
que se desintegram noutras. Por exemplo, o
(leia-se qui) [4]
decai rapidamente, algumas vezes para o
.
Por isso, na experiência NA50, 30% dos
detectados vêm do "pai"
,
10% do "pai"
'
e 60% são produzidos
directamente.
Sendo o "saco" do
maior que o do
,
as colisões semi-frontais têm já
a densidade de energia suficiente que impede a distância necessária para a
formação do
(corresponde o primeiro degrau). O
,
cujo "saco" é mais
pequeno, só é impedido de se formar a densidades de energia maiores, obtidas
nas interacções mais frontais (temos o segundo degrau).
Após este nosso resultado, a Comunidade Científica teve a sua "transição de
fase psicológica", i.e., passou a acreditar que, de facto, com as colisões
de iões de chumbo a alta energia conseguia-se atingir por uns instantes
ínfimos o novo estado da matéria!
A partir desta evidência cabalmente observada pela experiência NA50, as
outras experiências do CERN que também utilizam o feixe de iões de chumbo
para a pesquisa do QGP, com outro tipo de sondas que não a produção da
partícula
III - O FIM DA CAMINHADA
A corrida para a descoberta do estado primordial da matéria tinha chegado ao
fim! O desconfinamento de quarks e gluões foi observado pela primeira vez na
experiência NA50. O respectivo
artigo científico
foi aceite para publicação
na semana passada pela revista científica da especialidade,
Physics Letters B.
A descoberta está feita! Acrescentámos mais uma peça no puzzle complexo
que é a compreensão da estrutura da matéria e a formação do Universo.
Novas etapas virão. Energias muito mais elevadas, só possíveis em
colisionadores (RHIC e LHC), são necessárias para que o novo estado da
matéria não seja tão efémero e permita o estudo sistemático do seu
comportamento, das suas características e das suas propriedades.
FOMOS OS PRIMEIROS
,
passam a tirar a conclusão de que algumas das suas observações,
um pouco bizarras, são também o resultado da formação de QGP, havendo embora
explicações possíveis no quadro dum gás de hadrões, i.e., não se
considerando a transição de fase. A grande diferença é que nenhum desses
sinais, ao invés da supressão do
,
é uma manifestação clara de transição
de fase para QGP, ou seja com variações bruscas, que permita uma conclusão
inequívoca.
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Paula Bordalo 15/Fev/2000 |