40 anos · 40 histórias: Elisabete Neves
Nesta história, Elisabete Neves leva-nos numa viagem aos anos 90, quando o financiamento de um projeto chegava em cinco cheques e recorda a sua primeira missão como "levantadora oficial de verbas".

A Viagem dos Cinco Cheques
por Elisabete Neves
“Houve um tempo em que para conseguir fazer investigação, era necessário apanhar o comboio... e ir buscar o dinheiro.”
Nos anos 90, quando cheguei ao LIP, havia procedimentos que hoje me fazem sorrir... Um deles envolvia os projectos de investigação, desde a candidatura até à parte financeira.
Concorrer a um projecto não se resumia a ter uma boa ideia e escrever o projecto... vinha depois a fase da impressão, que podia facilmente ocupar uma noite inteira.
Depois, toda a documentação seguia por correio, mas não de qualquer maneira. Tinha de ser organizada em três envelopes distintos, identificados com as letras "A", "B" e "C", quase como um jogo de enigmas:
No envelope "A" estava o resumo do projecto, os objectivos e as palavras-chave, tudo em modo anónimo, como num concurso secreto. O envelope "B" trazia a proposta completa: estado da arte, plano de trabalho, orçamento, currículo da equipa e referências bibliográficas. Era, basicamente, o "calhamaço". No envelope "C" iam os dados institucionais e as declarações assinadas, a parte mais solene do processo.

Reconstituição digital criada com inteligência artificial a partir de materiais originais da época, uma fotografia da impressora e um edital da JNICT. Gentilmente cedidos por Elisabete Neves.
Quanto ao financiamento, na altura a JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica) era a entidade responsável pelos projectos. Mas havia um pequeno "detalhe": as verbas não apareciam na conta bancária. Não. Era preciso ir buscá-las... a Lisboa.
A minha primeira missão como "levantadora oficial de verbas" ficou marcada na memória. Planeei a ida a Lisboa com todo o cuidado. Às 7h20 já estava no comboio, determinada a não chegar atrasada.
Cheguei cedo demais, claro: a tesouraria só abria às 10h00. Depois de um ritual de assinaturas, validações e carimbos, entregaram-me cinco cheques correspondentes às verbas aprovadas.
E foi aí que percebi que a missão tinha adquirido outro tipo de responsabilidade. Saí para a rua com a carteira bem fechada e um pensamento constante: "E se me assaltam?". A viagem de regresso decorreu sem incidentes, mas com vigilância redobrada.
Quando cheguei a Coimbra, a prioridade era clara: depositar os cheques o mais rapidamente possível. Só então respirei de alívio. Missão cumprida!
Curiosamente, todo este processo, iniciado ainda antes das oito da manhã, envolvendo deslocação a Lisboa, espera na JNICT, levantamento de cheques, transporte e depósito em Coimbra, estava concluído por volta das 13 horas. Com o tempo, as missões seguintes correram com mais confiança e alguma descontração.
Hoje, olhando para trás, entre plataformas digitais e cliques instantâneos, quase custa acreditar. Mas houve um tempo em que para conseguir fazer investigação, era necessário apanhar o comboio... e ir buscar o dinheiro.
Histórias como esta fazem parte do dia a dia de muitas pessoas que, em diferentes funções, contribuíram para o percurso do LIP. E é desse trabalho colectivo que se constroem 40 anos de uma instituição.