40 anos · 40 histórias: Patrícia Conde
Patrícia Conde revisita o percurso do grupo ATLAS no LIP, dos primeiros trabalhos nos anos 80 à próxima geração de experiências em física de partículas.

40 anos do grupo ATLAS no LIP
por Patrícia Conde
Quando começamos na investigação, raramente pensamos em ficar ligados à mesma experiência durante décadas. E, no entanto, foi isso que aconteceu com muitos dos membros do grupo ATLAS no LIP.
As origens desta história remontam aos anos 80, ainda antes da criação formal das colaborações do LHC. Ainda antes do contexto do DRDC (Detector R&D Committee), começaram os primeiros desenvolvimentos para os detectores do futuro. No LIP, o caminho que levaria à colaboração Portuguesa em ATLAS foi iniciado por Amélia Maio, com trabalho pioneiro em calorimetria com fibras cintilantes e WLS, contribuindo primeiro para o SPACAL, e depois para o RD1 e RD34, sendo que esta última colaboração de R&D deu origem ao TileCal de ATLAS.

Em outubro de 1992, com a submissão das Letters of Intent ao CERN, nascia oficialmente a colaboração ATLAS. Seguiu-se uma fase exigente de desenvolvimento e mais tarde a construção, que para a equipa portuguesa se traduziu num dos períodos de actividade mais intensos da sua história. A produção do TileCal implicou um esforço extraordinário: cerca de 600 mil fibras WLS foram aluminizadas, testadas e inseridas em perfis, ao longo de meses de trabalho em turnos quase contínuos. Para tornar o processo viável, foi desenvolvido um robô específico. Este sucesso não foi apenas técnico — deveu-se também a uma coordenação rigorosa e persistente, assegurada durante anos por Amélia Maio, cuja capacidade de organização e visão foram determinantes para formar e consolidar o contributo português para a experiência ATLAS.
Com o detector a tomar forma, o grupo foi também crescendo e diversificando as suas atividades. Vieram o software de controlo do TileCal, as bases de dados de operação de ATLAS, e o desenvolvimento de algoritmos de reconstrução e calibração de jatos para o trigger. Em paralelo, os estudos de física evoluíam de cenários simulados para previsões cada vez mais próximas da realidade.
O arranque do LHC, em 2008, trouxe entusiasmo — e um contratempo inesperado. Após apenas alguns dias de colisões, um acidente obrigou a parar a máquina durante cerca de um ano. Longe de ser um período perdido, esse tempo foi aproveitado ao máximo: os dados de muões cósmicos permitiram afinar o detector e toda a cadeia de aquisição. Quando o LHC regressou em 2009, a experiência estava preparada — e a eficiência na recolha de dados foi exemplar.
Nessa fase, a presença da equipa portuguesa no CERN era quase constante. O pequeno gabinete do grupo tornou-se ponto de encontro, local de trabalho e, por vezes, espaço demasiado exíguo para todos os que lá passavam.

Seguiram-se anos marcantes: as primeiras medições dos bosões W, os estudos do quark top, a descoberta do Higgs, e as pesquisas por nova física. Em paralelo, foram sendo preparados os upgrades para alta luminosidade, garantindo a continuidade desta aventura científica.
Ao longo destas quatro décadas, o grupo formou dezenas de estudantes e investigadores. Alguns permanecem, outros seguiram novos caminhos, levando consigo a experiência adquirida. E há também aqueles membros da equipa que já não estão entre nós — como Peter Sonderegger, José Silva e Pedro Jorge — cujo contributo permanece na história do grupo.

As fotografias que acompanham este texto capturam alguns momentos dessa história: o trabalho meticuloso na construção, a intensidade dos períodos de operação, os gabinetes cheios, as homenagens e as celebrações.
Quarenta anos depois, o grupo ATLAS do LIP é mais do que um projeto científico. É o resultado de um esforço coletivo prolongado no tempo, sustentado por competência, dedicação e, durante muitos anos, por uma liderança decisiva da Amélia Maio.

E, de certa forma, a história fecha um ciclo. Tal como nos anos 80 se começava a pensar nos detectores do LHC, hoje o grupo está já envolvido nas atividades de R&D para as futuras experiências do Future Circular Collider. Novas tecnologias, novos desafios e, inevitavelmente, uma nova geração de investigadores. Se os primeiros 40 anos foram de desenvolvimento tecnológico, descobertas e exploração sistemática do Modelo Padrão, os próximos poderão alargar ainda mais esse horizonte, seja através de novas descobertas, seja aprofundando as questões que permanecem em aberto.
A experiência diz-nos que estes projetos começam devagar, quase como uma aposta distante. E acabam por se tornar… uma vida inteira.
